Sonata de uma Briga — Capítulo 1 — A Casa

A vida cinza de Ryan em casa: o pai distante, a rotina sem cor, a manhã que não deixa de doer.

Ryan tem tudo. Menos uma manhã que não doa.

Meu nome é Ryan.

O que vem agora aconteceu antes de eu entrar na história de vocês. Antes do corredor. Antes da caixa (linha principal, cap. 15). Vou contar do começo, porque só assim faz sentido.


É uma casa.

Minha casa. Não vou fingir modéstia: é uma casa muito rica. Tem ala que eu não piso há meses. Tem funcionário cujo nome eu nunca aprendi, porque não era pra eu aprender.

Meu pai e minha mãe construíram tudo isso. Não são famosos — os dois tratam a discrição como religião. Mas são ricos de um jeito que a palavra não alcança. Negócios no mundo inteiro. Alguns eu conheço. A maioria não.

— Eu já tenho dinheiro pros meus filhos — meu pai fala sempre com a mesma calma. — Pros filhos dos meus filhos. E pros filhos deles. E ainda assim eles não vão conseguir gastar tudo o que eu ganhei.

Ele deixa a frase respirar. Depois vem a parte que importa pra ele.

— Não preciso que você ganhe dinheiro, Ryan. Preciso que você seja uma representação clara da nossa classe, da nossa casta superior. De quem somos e o que representamos para esse mundo.

Eu concordo. Concordar é mais barato.


Minha vida é como as partituras que eu toco no piano de cauda longa: parecem muito bonitas, e nada foi escrito por mim. Eu somente reproduzo, obedeço.

Minhas manhãs começam às cinco.

Não porque eu acordo. Porque me acordam. Um dos empregados bate duas vezes na porta e acende a luz do closet antes de eu abrir os olhos, e a partir dali o dia já está andando sem mim.

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