Alan, o Campeão — Capítulo 2 — Três Anos

A primeira morte que Alan viu foi aos três anos. O resto foi ladeira abaixo.

Antes de ser Rei, ele foi bucha de canhão, preso e assassino. Aos treze, mandava em adultos.

A primeira morte que eu vi foi aos três anos.

Eu lembro em pedaços. É assim que a memória de criança funciona — não tem começo nem fim, só recortes que ficaram acesos enquanto o resto apagou.

Lembro da luz da cozinha. Uma lâmpada só, sem cúpula, pendurada num fio. Lembro do chão frio nos meus pés. Lembro da geladeira zumbindo, porque a geladeira continuou zumbindo o tempo todo, do começo ao fim, como se nada estivesse acontecendo.

Meu pai e minha mãe viviam do mesmo jeito. Juntos, brigados, juntos de novo. Ele guardava o material dele numa lata em cima do armário, e ela sabia onde era, e às vezes, quando faltava, ela mexia. Todo mundo naquela casa fingia que isso não ia dar em nada um dia.

Naquela noite deu.


Meu pai estava numa crise. Tinha usado o que não devia, ou não tinha usado o que precisava — pra quem está do lado de fora, dá no mesmo. A voz dele saía alta e sem sentido, palavras que não montavam frase. Ele andava de um lado pro outro da cozinha batendo a mão na própria cabeça.

Minha mãe tentou explicar. Depois tentou gritar de volta. Depois tentou passar por ele em direção à porta.

Ele fechou as duas mãos no pescoço dela.

Eu vi ela se debater. Vi os pés dela riscarem o chão procurando apoio que não tinha. Ouvi ela gritar até o grito virar outra coisa, mais baixa, e depois virar nada.

E vi a vida sair. Não do corpo — dos olhos. Tem um momento em que os olhos ainda estão ali, abertos, virados na sua direção, e mesmo assim já não tem mais ninguém atrás deles. Eu era pequeno demais pra ter palavra pra isso, mas grande o suficiente pra ver.


Meu pai soltou ela no chão. Ficou parado, olhando as próprias mãos, como se elas tivessem feito aquilo sozinhas.

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