A Banda do Kim e do Jack — Capítulo 3 — O Violão

Voltando do busão depois de vender bala, o Kim esbarra num violão.

A gente não tem uma banda. O Kim faz questão de deixar isso claro.

Um dia eu estava voltando pra casa depois de vender umas balas no busão.

E encontrei uma coisa jogada no meio do caminho.

Na hora eu não sabia direito o que era. Mas eu sabia que era um instrumento. Estava quebrado — o braço solto, um lado rachado. Alguém tinha jogado fora.

Eu peguei e levei pra casa.

Nem passou pela minha cabeça avisar o Jack. Eu só pensei: legal, vou levar isso. Não tinha plano nenhum. Só achei que talvez desse pra consertar, e que se desse pra consertar, talvez eu conseguisse vender. Ah, ingenuidade minha.

Eu não fazia ideia da merda que eu estava começando. Só entendi depois de já ter feito.


Consertei.

Descobri que era um violão. Comprei um jogo de cordas com o dinheiro das balas — o mais barato, e mesmo assim doeu pagar. Vi uns tutoriais na internet num celular emprestado, colei o braço, lixei, ajustei o que dava pra ajustar. Não era nada impossível. Era só trabalho, e trabalho eu sei fazer.

A parte difícil não era o conserto. Era a próxima.

Aí eu comecei a tentar tocar, afinal era um violão, porra.

A primeira vez que saiu um acorde limpo — um só, um mizinho — eu fiquei olhando pra minha própria mão como se ela fosse de outra pessoa. Deu uma sensação estranha. Não era orgulho, não era alegria. Era mais tipo: essa coisa aqui obedeceu. Eu mandei e ela fez.

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