Porque Assim Escolheu o Jack — Capítulo 5 — A Loja do Seu Nestor
Primeiro problema de quem mora na rua: onde dormir. O Seu Nestor entra aqui.
Ninguém nunca perguntou. Por isso ele nunca contou. Agora ele conta — rindo, porque é o único jeito que ele aceita.
Primeiro problema de quem mora na rua: onde dormir.
Não é o mais urgente — o mais urgente é comida —, mas é o que mais assusta, porque dormir é a hora que você fica sem defesa. Cinco anos de idade, na rua, e a noite é um bicho.
Eu resolvi isso com o Seu Nestor. Ele nunca soube. Ou soube e fez que não. Velho é esperto, então eu prefiro acreditar que ele soube.
Seu Nestor tinha uma lojinha de miudeza e conserto. Cadarço, pilha, um balcão pra arrumar rádio, essas coisas. Fechava umas sete da noite, botava o cadeado, e ia pra casa dele.
Eu descobri que a janelinha do depósito, nos fundos, não travava direito. Depois que ele ia embora, eu subia por ali, deitava em cima dos sacos de estopa entre as caixas, e vazava antes de clarear. Fiz isso por um bom tempo — não todas as noites, mas boa parte delas.
A loja cheirava a pó de café e madeira velha. Tinha um aquecedorzinho que o Seu Nestor deixava ligado no mínimo, acho que pro gato. O gato me odiou por uma semana e depois me adotou. Foi o meu primeiro contrato comercial: ele me deixava dormir, e eu não contava pra ninguém que ele também dormia dentro da loja em vez de caçar rato. Sigilo dos dois lados.
E guarda essa loja na cabeça. O Seu Nestor e essa lojinha voltam no último capítulo, e voltam importante.
Antes da loja, nas primeiras semanas, eu comi do que pediam.
Chegava, fazia a cara, pedia comida. E funcionava. Gente tem dó de criança na rua. Por umas duas semanas, a dó é um modelo de negócio que fecha as contas.
Aí eu percebi o problema.
Dó estraga. Dó estraga que nem leite fora da geladeira.
Semana um, você é a criança na rua e todo mundo quer ajudar. É bonito, todo mundo se sente bem. Semana quatro, você é a criança que ainda tá na rua, e agora você virou um problema que não resolveu. A mesma tia que te deu pão na segunda atravessa a rua na sexta pra não te encontrar.