Alan, o Campeão — Capítulo 8 — O Indiozinho
Num dia comum, Alan cruza com um moleque que não abaixa a cabeça.
Antes de ser Rei, ele foi bucha de canhão, preso e assassino. Aos treze, mandava em adultos.
Foi num dia comum.
Terça, começo de tarde. Movimento fraco. Eu estava fazendo uma coisa que eu quase nunca fazia pessoalmente, mas que naquele dia não dava pra passar pra ninguém: carregando dois quilos de pó de uma boca pra outra, dentro da mochila, andando na minha própria rua como qualquer aluno voltando da escola.
Dois quilos na mochila é motivo de sobra pra você não querer nem uma mosca olhando na sua direção.
E foi exatamente aí que a rua começou a fazer barulho.
Primeiro eu ouvi. Grito de moleque, corpo batendo em portão, aquela risada nervosa de quem está vendo briga e não quer estar perto o suficiente pra entrar nela.
Quando eu virei a esquina, já era o fim. Dois moleques de rua no chão, um segurando o nariz, o outro só sentado, decidindo se valia a pena levantar. E, de pé no meio dos dois, um terceiro.
Menor que os dois que ele tinha derrubado. Menor que quase todo mundo ali.
Indiozinho. Pele marrom, cabelo preto liso caindo na testa, um corte no lábio que não parecia incomodar ele. Camiseta rasgada no ombro. E uma postura — os ombros pra trás, o queixo pra cima — de quem acha que o mundo inteiro deve alguma coisa pra ele e está atrasado no pagamento.
Ele me viu chegar. Os outros dois aproveitaram pra sumir. Ele não. Ele veio andando na minha direção como se me conhecesse.
Parou a um passo de mim. Bem na frente.