Alan, o Campeão — Capítulo 7 — Dono de Bairro
Mais alguns serviços, e o bairro inteiro passa a ser de Alan.
Antes de ser Rei, ele foi bucha de canhão, preso e assassino. Aos treze, mandava em adultos.
Nos três anos seguintes eu fiz mais alguns serviços.
Não vou contar todos. As primeiras vezes são as que ensinam alguma coisa; o resto é repetição, e repetição não faz história. Mas deixa eu te dar uma amostra dos três anos, pra você entender o degrau.
Teve o cobrador.
Um homem que trabalhava pra Banca havia quinze anos e começou a ficar com uma parte antes de repassar. Pouco. Uma migalha. Ele achava que ninguém contava. Eu contava. Chegaram até mim os números, e eu não precisei encostar nele — só mostrei os números pra ele, numa mesa, num papel, e deixei ele imaginar sozinho o que vinha depois. Ele devolveu tudo, com juros, e nunca mais errou uma conta.
Medo bem colocado trabalha de graça pra você o resto da vida.
Teve a briga de vizinho. Dois homens, um muro, trinta centímetros de terreno. Isso já tinha virado tiro duas vezes e ia virar morte na terceira. Eu comprei os trinta centímetros dos dois, pelo dobro do que valiam, e transformei a faixa de terra num beco de passagem que rendia mais pra Banca do que os dois quintais juntos. Todo mundo saiu ganhando, principalmente eu.
E teve o policial. Sempre tem um policial. Esse aqui não queria dinheiro, queria transferência pra perto da família. Eu consegui a transferência através de um vereador que devia um favor pra cúpula. O policial passou a me dever, e um policial que te deve vale mais do que dez que você paga.
No fim dos três anos, a frente do meu bairro se aposentou.
Não morreu, não sumiu — se aposentou de verdade, com casa na praia, coisa rara naquele mundo. Ele indicou meu nome pra cúpula, e a cúpula não discutiu.
Eu tinha treze anos e um bairro inteiro de Marelia debaixo de mim.
As bocas, os gerentes, os vapores, os olheiros. As contas que entravam e saíam. Os cobradores. As brigas de vizinho que viram tiroteio se ninguém resolve na hora certa. As mães que subiam a escadaria pra pedir que o filho fosse deixado em paz. Tudo passava por mim.