Alan, o Campeão — Capítulo 6 — O Mendigo
Primeiro nome da lista: o Sombra. Alan aprende o preço de subir.
Antes de ser Rei, ele foi bucha de canhão, preso e assassino. Aos treze, mandava em adultos.
O primeiro nome da lista era o Sombra.
Chefe da Baixada — a facção do outro lado da linha do trem, a única em Marelia grande o suficiente pra dar trabalho pra Banca. As duas se odiavam fazia tanto tempo que ninguém lembrava o motivo. Motivo é enfeite. O que importa é que cada boca que eles tinham era uma boca que a gente não tinha.
A Banca queria o Sombra morto havia anos e nunca chegava perto. O cara não tinha casa, não tinha rotina, não tinha foto recente. Dormia num lugar diferente toda noite. Ele não era o mais forte da Baixada nem o mais rico. Ele era o mais difícil de achar, e naquele mundo isso é a mesma coisa que ser o mais poderoso.
Mas todo fantasma tem uma rachadura. A dele era café.
Ninguém tem problema de conversar com uma criança.
Eu passei semanas rodando a Baixada de sandália furada, pedindo trocado, entregando bilhete de uma venda pra outra. E fui juntando as pontas. Um dono de banca de jornal reclamou que "o Sombra" nunca comprava nada, só passava. Uma senhora falou que o filho dela já tinha visto "o homem" tomando café perto do mercado. Um vapor da Baixada, sem saber com quem falava, comentou que o chefe dele era chato com café — só tomava de um lugar, uma padaria específica na rua de baixo, e ninguém nunca sabia o dia.
Ninguém sabia o dia. Mas o lugar era um só.
Então eu fiquei no lugar.
Sentei na calçada em frente à padaria vestido de mendigo.
A perna direita enfaixada e torta, presa numa tala, pra eu parecer manco e pra ninguém pensar em pedir pra eu correr. Uma faixa suja sobre um olho e o outro meio fechado — dava pra eu enxergar a rua inteira e parecer que eu não enxergava nada. Roupa encardida de propósito. Um copo de plástico na frente com umas moedas que eu mesmo tinha posto.
Fiquei três dias.
No primeiro dia passou muita gente e ninguém me deu nada, o que foi bom, porque significa que eu estava convincente. No segundo dia um guarda mandou eu circular e eu chorei até ele desistir. Na madrugada do terceiro dia eu quase dormi de verdade.
Aí ele apareceu.
Meio da manhã, sem pressa, mãos no bolso. Um homem comum. É sempre um homem comum.