Alan, o Campeão — Capítulo 10 — O Cabelinho Verde

Numa reunião com os subcomandantes, um segundo moleque entra na conversa.

Antes de ser Rei, ele foi bucha de canhão, preso e assassino. Aos treze, mandava em adultos.

Uma semana depois eu estava numa reunião com todos os meus subcomandantes do bairro.

A gente resolvia uma chatice. Alguns policiais — daqueles que a gente pagava pra olhar pro outro lado — tinham decidido que o preço de virar a cabeça tinha subido.

Isso é mais perigoso do que parece. Se você deixa um cara aumentar o preço só porque quis, no mês seguinte todos os outros aumentam também, e aí não tem caixa que segure. A gente ia precisar de uma demonstração de força. Alguma coisa que fizesse os caras entenderem que o pagamento estava justo e ia continuar justo.

No meio disso, um cara entra na sala e me chama.

— Tem um moleque te procurando lá embaixo. Pelo nome.


Eu saí de mau humor. Era uma reunião importante.

Lá embaixo tinha um moleque da mesma idade do da semana passada. Só que esse era negro — negro como eu —, dentes muito brancos, e um cabelo pintado de verde tão mal pintado que dava dó.

E estava me procurando. Pelo meu nome.

Eu não entendia de onde aqueles moleques estavam saindo. Nem como esse tinha conseguido subir o Morro inteiro sem ninguém parar ele.

— E aí — falei. — Sou eu.

Ele abriu um sorriso do tamanho da cara.

— Ah, beleza. Você é o Alan, então.

E já pulou tentando me acertar um soco na cara. Um pulo meio abestado, telegrafado, coisa de quem viu numa luta e nunca fez.

Levou um chute no estômago e foi pra trás. Deu risada do chão, sentado, uma mão na barriga.

— Ih. — Ele me olhou de baixo, ainda rindo. — Então você é o campeão mesmo, é? O que dizem que é. — Levantou apontando o dedo pra mim como quem tirou uma foto. — Vou te chamar de Campeão.

O nome pegou. Anos depois esses dois ainda usam ele — linha principal, cap. 3.

Até aquele dia ninguém tinha me chamado disso. Foi um moleque de sete anos, sentado no chão, com a marca do meu pé no estômago, que me deu o nome que o resto de Marelia ia usar pra sempre.


Eu não estava entendendo mais nada da minha própria vida.

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