As Correntes — Capítulo 15 — O Imposto do Rei

Em outra parte de Marelia, o Alan conta o que aconteceu com quem sobrou daquela noite — e lembra a única regra da cidade.

O Kim não gosta de contar história. Então o Jack conta junto.

ALAN

— Acorda.

Nada.

— Acorda.

Ele abriu um olho. Depois o outro. Tentou mexer os braços e descobriu que estavam presos na cadeira. Tentou mexer as pernas e descobriu a mesma coisa.

— Que porra é essa? O que tá acontecendo?

Deixei ele olhar em volta. Uma sala sem janela, uma lâmpada só, o cheiro de cimento molhado. Meus homens encostados na parede, sem pressa. Eu sentado na frente dele, perna cruzada, esperando.

Sempre deixo olhar em volta. Economiza explicação.


— E aí, meu amigo. Você sabe quem eu sou?

Ele me encarou. Demorou. A cara dele ainda tinha as marcas daquela noite — o nariz torto, o olho roxo, um curativo mal feito no supercílio. Mas o que mudou na cara dele não foi nada disso. Foi quando ele entendeu.

— Você… você é o Alan. O rei de Marelia.

— Exato.

Descruzei a perna.

— Então, se você sabe quem eu sou, você devia conhecer as regras pra operar no meu castelo.


Eu não sei se você entende por que eu sou o rei de Marelia. Não vou perder tempo explicando. Vou ser curto e claro.

Marelia é o meu castelo.

Nada acontece aqui sem eu ficar sabendo. Nenhuma moto passa, nenhuma carga desce, nenhum galpão abre as portas de noite sem que alguém, em algum lugar, me conte. Eu sabia do clube de vocês antes de vocês terem nome.

— Se você conhecesse as regras de Marelia — eu falei —, você ia saber que cometeu um erro muito grave. Muito grave mesmo.


Ele começou a falar rápido. É sempre assim. Quem entende que tá perdido fala rápido, como se as palavras pudessem pagar alguma coisa.

— Mano, me desculpa. Me desculpa. A gente tava tentando montar a nossa operação, só isso. Se é grana, se é mercadoria, a gente acerta, a gente divide, você pode ficar com tudo. Só que… só que queimou tudo. Tudo. Apareceram dois malucos no nosso esquema e destruíram tudo.

Dois malucos.

Eu quase sorri.


— Meu querido, a coisa é o seguinte.

Levantei. Dei a volta na cadeira dele devagar.

— Eu não quero saber da sua grana. Não quero saber da sua droga. Não quero saber dos seus esquemas.

Parei atrás dele. Ele não conseguia me ver, e isso fazia ele tremer mais.

— Isso tudo eu já sabia. Eu tava deixando. Tava deixando vocês frutificarem. Porque uma hora vocês iam ter que dividir comigo, se quisessem continuar atuando aqui. Todo mundo divide. É o imposto do rei.

Voltei pra frente dele.

— Mas essa parte é negociação. Essa parte é só negócio. E negócio eu resolvo com conversa.

— Então vamos conversar, mano. Por favor.

— O problema não é o negócio.


— O problema é que você quebrou uma regra. Uma regra muito clara.

Me abaixei até ficar na altura dos olhos dele.

— Tem uma regra nessa cidade. E ela funciona assim: o moleque de cabelo verde e o indiozinho de boné azul, ninguém toca.

Ele piscou. Não entendeu.

— Essa regra é clara pra todo mundo que opera nessa cidade. Da menor boca da Baixada até a cúpula lá no alto do Morro. Ninguém encosta num fio de cabelo daqueles moleques.

— Mas… mas quem são esses moleques? Por que eles atacaram a gente?

— Não importa por quê.

— Mano, eles tacaram fogo em tudo. Eles…

— Eu não sei por quê. — Eu falei devagar, pra ele ouvir cada palavra. — Vocês devem ter feito alguma merda muito grande. Eu já vi aqueles dois atuarem muito. Muito mesmo. Mas eu nunca vi eles fazerem uma desgraça como a que eles fizeram com você.

Olhei pro curativo dele.

Crie sua conta grátis pra ler o resto deste capítulo.

English · Español