Sonata de uma Briga — Capítulo 3 — O Mundo Cinza

Como é viver quando tudo perde a cor — e por que Ryan aguenta calado.

Ryan tem tudo. Menos uma manhã que não doa.

Vou te contar como é, daqui pra frente.

Minha vida é cinza. Todo dia eu tento mais me esconder, passar despercebido, ocupar menos espaço. E mesmo assim não posso largar isso — porque pro meu pai a nossa casta tem que passar pelas melhores instituições e ser reconhecida por elas. Então eu volto. Todo dia eu volto pro inferno cinza.

Foi nesse cinza que eu vi os dois.

Dois sujeitos estranhos que andam por esse mundo sem cor e são a única coisa com cor dentro dele. Um tem um moicano verde. O outro, um boné azul. Eles atravessam os corredores como se o lugar fosse deles.

E é estranho: se você reparar, quase todo mundo está virado pra eles. Olhares de desprezo, de ódio, de inveja. Ninguém entende por que aqueles dois insistem em vir pra cá, por que continuam pisando no nosso ambiente. Eles não são conhecidos por serem pacíficos. Conquistaram o espaço deles na força.

O Arnold não tem força. Tem os capangas — homens e mulheres, alunos e alunas, todos girando em volta dele pra puxar saco e fazer o que ele manda. Esses dois são diferentes. A força é deles mesmos. Já enfrentaram muita gente nessa escola, e dá pra ver a frustração e o desejo de vingança em quem olha pra eles.

O mais incrível é que eles não parecem se importar.

Eu vejo esse mundo cinza. Imagino que, se eles enxergassem o que eu enxergo, o mundo em volta deles seria preto — escuridão, puro ódio. E os caras andam rindo. Se divertindo. Conseguem fazer isso por um motivo só: eles têm força. E é nesse mundo que a gente vive. A lei do mais forte. A única coisa que eu nunca vou ter.

Então sim, eu também olho pros dois. E eu tenho raiva. Raiva de como pessoas que deveriam ser inferiores a mim conseguem sorrir aqui. Eles, que não têm nada, parecem felizes. E eu, que tenho tudo, só forço a cabeça pra aguentar mais um dia.

Senão eu já tinha pulado desse prédio. Ou parado na frente de um carro. Só pra acabar.


O Dia do Fim

Esse é o dia do fim.

Eu estou de joelhos no chão do corredor (a linha principal volta a esse corredor, cap. 15). O Arnold tem o pé no meu pescoço e eu tenho que latir toda vez que ele manda. O grupinho dele conversa de outro assunto, sem pressa. Alguém chuta a minha bunda de passagem.

Crie sua conta grátis pra ler o resto deste capítulo.

English · Español