Sonata de uma Briga — Capítulo 4 — Palavra e Ação
No corredor, dois caras que ainda têm cor esbarram no dia mais cinza de Ryan.
Ryan tem tudo. Menos uma manhã que não doa.
O moicano pôs a mão no boné do amigo, girou o boné na frente do rosto dele, e olhou pra mim com aquele sorriso largo, os dentes brancos.
— Aí, cara. Leva mal não. Esse idiota aqui fala sem pensar. Mas sinceramente: se ser inferior a você é ficar do jeito que a gente tá, e ser superior é ficar do jeito que você tá... E aí, parça?
O boné azul falou sem nem olhar pra mim.
— Inferior!
Moicano verde riu e soltou:
— Inferior também. Já fizemos nossa escolha, valeu!
O moicano balançou o boné do boné azul.
— Para de mexer no meu boné, caralho. — o boné azul. — Você sabe que eu não gosto.
Começaram a trocar de assunto ali mesmo. O boné azul começou a se levantar.
O grupinho do Arnold ria da nossa conversa, tirava sarro, me sacaneava como sempre. E eu estava cansado. Muito cansado.
— É muito fácil — eu gritei. — É muito fácil pra uns brutamontes que nem vocês, uns neandertais, ignorantes, que só sabem brigar que nem selvagens, querer humilhar os outros. E por qual motivo? Tenho mais dinheiro, terei mais sucesso, sou mais inteligente. Só porque vocês têm poder hoje, acham que podem dizer o que quiser, fazer o que quiser. Mas não vai ser sempre assim. Não é sempre que vocês vão estar na escola. Não é sempre que vocês vão ter o poder.
Aquilo não era só pro moicano. Era pra todo mundo em volta. Pra tudo que estava acontecendo. Pra aquela vida. Era uma das coisas que eles iam ouvir pelo meu vídeo, mas eu não estava aguentando mais e falei ali mesmo.
O boné azul já estava de pé, ajeitando o boné. Falou sem me olhar.
— O consolo do fracassado, esperar cair do céu o futuro melhor.
Virou o rosto devagar.
— Falar é legal, cara. Mas é ação que faz diferença.
Dessa vez o medo não veio. Só raiva. Raiva de um inferior daquele me dando lição de moral.