Sonata de uma Briga — Capítulo 2 — Arnold
Ryan é o capacho do Arnold há anos. Hoje a conta chega.
Ryan tem tudo. Menos uma manhã que não doa.
Não é força de expressão. Capacho é a palavra certa. Tudo bem, certa talvez seja forçar a barra, mas a palavra correta não é politicamente aceitável.
Sou uma vítima da situação. Da minha própria situação — do meu privilégio, da minha casta, da posição de elite que meu pai tanto preza. Tem uma piada aí, se você parar pra pensar. A mesma coisa que devia me proteger é a coisa que me entrega pra eles toda manhã.
Porque eles também são ricos. Talvez não como a minha família — quase ninguém é. Mas ricos o suficiente pra estarem ali, no mesmo corredor, com o mesmo uniforme caro. E mesmo assim me fazem pagar as contas deles. Fazem as lições deles pararem na minha mochila. Me humilham. Filmam. Adoram filmar.
Esses são os meus dias. Já faz tanto tempo que eu não lembro direito de como eram antes.
Começa sempre com o Arnold.
Eu não sei o que ele tem contra mim. Nunca soube. Desde o primeiro dia em que ele chegou na Elite Academy e me olhou de cima a baixo no corredor, alguma coisa foi decidida — por ele, sobre mim — e nunca mais mudou.
Arnold não é o valentão de filme. Não é grande, não é musculoso, não encosta a mão em mim se puder evitar. É magro, tem a voz baixa, senta na primeira fileira e responde o professor com educação.
Mas tem uma coisa no olhar dele.
Ele gosta de ver. Não de fazer — de ver. Encosta na parede, cruza os braços, e assiste os amigos trabalharem em mim com a cara de quem está revendo um filme que já achava engraçado da primeira vez.
Tudo o que acontece comigo passou pela cabeça dele antes. Pensado, montado, distribuído. Os outros só executam.
Segunda.
Segunda é dia de acerto.
Dylan chega na minha carteira antes do primeiro sinal, senta do meu lado, me manda uma mensagem temporária, espera eu anotar no caderno e garante que me viu apagar. Uma lista. Cantina, uma tela de celular que alguém quebrou no fim de semana, "empréstimos" que ninguém pegou emprestado. Eu confiro os números de cabeça enquanto o resto da sala vai sentando.
Seiscentos numa semana leve. Mais que isso numa ruim.
Eu destravo o telefone com o polegar, faço as transferências uma por uma, mostro a tela pro Dylan. Ele confere sem pressa, como se o dinheiro fosse dele.
Meu pai nunca perguntou pra onde vai o cartão. Nunca vai perguntar. Pra ele, sessenta ou seis mil é a mesma coisa — barulho de fundo.
Terça.
Terça tem três conjuntos de exercícios em cima da minha mesa quando eu chego.
Letras diferentes pra cada um. Eu aprendi a imitar a caligrafia dos três — a do Bruno inclina pra direita, a do Théo aperta demais a caneta, a da Marina é redonda e caprichada. Faço os três antes da aula começar, com a minha própria prova em branco do lado.
Eu tiro nota melhor nas provas dos outros do que nas minhas. Já pensei nisso mais de uma vez.