Alan, o Campeão — Capítulo 3 — A Bucha
Sempre tem vaga pra uma criança no crime. Alan aceita a primeira que aparece.
Antes de ser Rei, ele foi bucha de canhão, preso e assassino. Aos treze, mandava em adultos.
Tem um lugar no mundo que sempre tem vaga pra uma criança.
Pensa comigo. Uma criança não tem carteira assinada. Não tem RG que preste. Não pode ser contratada, não pode assinar nada, não existe no papel. Nenhum trabalho honesto emprega quem não existe.
Mas o crime emprega.
O crime não pede documento. Não pede idade. O crime te abraça, te dá o que comer, te ensina um ofício e ainda te chama de família. Quando você não tem mais ninguém, é a única coisa no mundo que abre a porta e diz entra.
Eu entrei com quatro anos, mais ou menos. Não tem como saber direito.
Quem mandava no meu pedaço de Marelia era a Banca.
A Banca é o nome que a gente dá pra quem administra o Morro — quem decide o preço, quem decide o território, quem decide quem vive e quem some. Acima da rua tem o vapor, que vende. Acima do vapor tem o gerente, que responde por uma boca. Acima do gerente tem a frente, que responde por um bairro. E lá em cima, no alto do Morro, tem a cúpula, que responde só pra si mesma.
Quem me puxou pra dentro foi uma mulher que todo mundo chamava de Tia. Ela juntava os moleques soltos, dava sopa, dava colchão, e depois de umas semanas dava uma tarefa. Simples. Levar um pacote fechado até um endereço e voltar. Quem voltava com o pacote entregue e a boca fechada ganhava mais sopa e uma tarefa maior. Quem abria o pacote, ou falava demais, sumia da fila e a Tia nunca mais lembrava o nome.
Era o RH. Eu só entendi isso anos depois.
Eu comecei embaixo de tudo. Levava recado de uma boca pra outra. Ficava de olho na esquina e assobiava quando a viatura virava. Coisa de moleque. Ninguém confia dinheiro nem droga numa criança de cinco anos, mas todo mundo confia um par de olhos.
Com o tempo eu subi um degrau. Fui pra rua com os adultos.