Eu sou Nina — Capítulo 5 — Azuma
Quatro anos em Azuma, a parada mais longa da vida da Nina. E a que mais marcou.
Nina foi rica, depois pobre de propósito, depois rica de novo. E nenhum dos meninos sabe.
A gente passou quatro anos em Azuma. Foi a parada mais longa (conto isso pros meninos anos depois, linha principal, cap. 9).
Azuma é longe. Outra língua, outra comida, outro jeito de olhar pra estrangeiro. E o meu pai viajando ainda mais que antes, semanas fora, a consultoria dele comendo o calendário inteiro.
Eu tinha doze anos quando chegamos e dezesseis quando saímos. Praticamente cresci lá.
Foi em Azuma que a luta virou rotina.
Não a academia — a rua. Menina estrangeira, sozinha, sem irmão mais velho, sem grupo. Isso é alvo em qualquer lugar do mundo. Umas duas vezes por mês tinha alguém pra testar se eu ia deixar barato.
Eu parei de deixar barato lá pelo terceiro mês.
Teve uma vez que três garotas me cercaram na saída de um mercado por causa de nada — uma delas achou que eu tinha olhado torto. Eu quebrei o nariz da primeira antes das outras duas entenderem que aquilo não ia ser fácil. Elas foram embora. Ninguém daquele grupo mexeu comigo de novo.
Eu não senti orgulho. Senti alívio. É diferente.
Teve outras. Nunca por briga que eu comecei.
Um menino mais velho que ficava me esperando na esquina do prédio pra pedir dinheiro que eu não tinha, todo dia, até o dia em que eu cansei e enfrentei. Esse foi o único que revidou de verdade. Eu saí com o lábio partido e ele saiu mancando, e nenhum dos dois voltou a tocar no assunto.