Porque Assim Escolheu o Jack — Capítulo 2 — O Interior
O Jack situa vocês no mapa: o interior, longe de tudo, o começo de tudo.
Ninguém nunca perguntou. Por isso ele nunca contou. Agora ele conta — rindo, porque é o único jeito que ele aceita.
Vou te situar no mapa.
Bem lá em cima, na parte alta de Bravara, tem uma região que ninguém põe em cartão-postal. Terra rachada. Sol que castiga. Canavial de um lado, mato seco do outro, e uma poeira que entra em tudo — na comida, no ouvido, na alma se você deixar. É o tipo de lugar onde a chuva é notícia. Quando cai, todo mundo para o que tá fazendo pra olhar.
Foi ali que eu nasci.
Meus pais eram gente humilde. Humilde de verdade — não a humildade de discurso bonito, a de quem corta cana o dia inteiro e volta pra casa com o corpo destruído e o bolso quase vazio.
E eles me amavam. Isso eu preciso deixar muito claro logo de cara, porque o resto dessa história é feio e eu não quero que respingue neles.
Me amavam pra caramba.
O problema não era amor. O problema era comida.
Ano seco atrás de ano seco, e uma boca a mais numa casa que já não fechava a conta. Meus pais olharam pra situação e enxergaram o que era: se eu ficasse, ia passar fome com eles. Talvez pior que fome.
Foi nesse aperto que apareceram os tios.
Eu tinha dois anos quando me levaram.
Dois. Depois disso eu quase não tive contato com os meus pais. Não tenho memória do rosto deles. O que eu carrego não chega a ser lembrança — é mais um clima, uma temperatura. Um colo que existiu. Uma voz de mulher cantando muito desafinado, e eu juro que essa voz é da minha mãe, e que ela cantava mal que era uma beleza.
É pouco. Mas foi antes dos dois anos e mesmo assim ficou. Isso diz alguma coisa sobre a força do troço.
Não sei se os tios eram tios de sangue. Naquela região, "tio" é qualquer parente meio distante que aparece de vez em quando.