Porque Assim Escolheu o Jack — Capítulo 3 — Tio e Tia

Ele vai chamar de Tio e Tia. Os nomes verdadeiros o Jack jogou fora de propósito.

Ninguém nunca perguntou. Por isso ele nunca contou. Agora ele conta — rindo, porque é o único jeito que ele aceita.

Vou chamar eles de Tio e Tia. Os nomes verdadeiros eu joguei fora de propósito e não vou catar no lixo agora só pra fazer bonito na narração.

Eu morei naquela casa dos dois aos cinco anos. Três anos. Na cabeça de uma criança, três anos é uma vida inteira.


A primeira coisa que marcou foi o barulho.

Criança. Muita criança. Aquilo não era casa — era um casarão velho de dois andares, cheio de quarto, com um corredor que rangia e uma escada em que ninguém confiava. Quase um orfanato, só que sem ninguém fingindo que ia cuidar de você. Eu não sei quantas crianças moravam ali. Mais do que dava pra contar de cabeça, e o número mudava.

Eu era o mais novo quando cheguei. Fui crescendo no meio daquilo.


Levou um tempo pra eu sacar o esquema, porque eu era pequeno demais. Mas ficou claro.

Cada criança naquela casa era dinheiro no fim do mês. Cada cabeça valia um tanto de auxílio, de benefício, de ajuda pra "família numerosa". O Tio e a Tia tinham montado uma criação de gente pequena, e a gente era o rebanho.

O dinheiro que era pra nos sustentar entrava e evaporava. Ia pro bolso deles, pra bebida, pro que fosse. Pra gente sobrava o mínimo pra continuar de pé — porque criança magra demais chama atenção, e chamar atenção era ruim pro negócio.


Comida ali era controlada como remédio de tarja preta.

Tinha hora, tinha porção, tinha dono. Faltar era o normal. Eu aprendi coisas naquela mesa vazia que carrego até hoje: que água engana a fome por uns quarenta minutos, que dá pra dormir com o estômago doendo se você se encolher do jeito certo, que o lixo de alguns lugares tem coisa aproveitável se você chegar antes dos outros.

Currículo pesado pra quem ainda não sabia contar até dez.


E teve a porrada.

Não vou dar detalhe, porque detalhe de apanhar é chato de ler, e vocês já me viram apanhar do Brock naquele anexo (linha principal, cap. 3). Pega aquilo, tira a plateia, tira o revide, encolhe pro tamanho de uma criança de três, quatro anos, e multiplica pela quantidade de dias. Pronto. A imagem tá aí sem eu precisar desenhar.

O pior nem era a dor. Era não dar pra prever. Dia bom e dia ruim usavam a mesma roupa, e você só descobria qual era quando já era tarde. Isso mexe com a cabeça de um jeito que a dor sozinha não mexe.


A gente não era criança naquela casa. A gente era número.

Ninguém sabia o meu aniversário. Ninguém sabia do que eu gostava. Eu era uma linha numa planilha, e o meu trabalho era continuar respirando pra não estragar a contagem no dia em que aparecia o assistente — aí sim tinha comida decente na mesa, e a Tia falava com voz de novela, e todo mundo sorria pra foto.

O assistente ia embora e a comida ia junto.


E tinha o porão.

De dia a gente era número pra foto. De noite tinha o porão, com uma porta que ficava trancada enquanto o sol estava alto. Quando escurecia, ela abria, e os mais velhos desciam. Com o tempo os menores desciam junto. Eu desci.

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