Porque Assim Escolheu o Jack — Capítulo 4 — A Porta
Vocês estão esperando a cena de saída dramática. O Jack não vai dar essa.
Ninguém nunca perguntou. Por isso ele nunca contou. Agora ele conta — rindo, porque é o único jeito que ele aceita.
Vocês estão esperando a cena de saída. Eu sei que estão. Trovão lá fora, mochila nas costas, um discurso na porta, a criança olhando pra trás uma última vez com a trilha sonora subindo.
Não teve nada disso.
Eu saí num dia de semana qualquer, de tarde, pela porta da frente, que nem tava trancada. Virei a esquina. E fui virando esquina atrás de esquina até a casa sumir do mapa.
Eu não corri.
Isso é importante. Correr é o que você faz quando tem alguém atrás de você. E não tinha ninguém atrás de mim.
Ninguém veio. Essa é a parte que, no papel, devia doer — e que na hora foi o maior alívio da minha vida até então. Porque se tivessem vindo atrás, eu ia ter que voltar. Uma criança de cinco anos não ganha essa discussão. Mas ninguém veio. Então, sinceramente: obrigado.
Ficou um monte de criança lá dentro. Eu sei disso.
Eu penso nisso às vezes, principalmente quando alguém tenta me chamar de corajoso. Eu não salvei ninguém. Eu mal consegui me tirar de lá. Levar mais alguém junto não passou pela minha cabeça, e se tivesse passado, não ia ter como. Cinco anos, sozinho — mal cabia eu dentro daquela decisão.
Essa parte não tem lado bom. Eu procurei. Não tem.
Foi ali, andando, que a coisa aconteceu dentro de mim.
Eu fiz a primeira escolha da minha vida. E cara, foi tão boa a sensação — escolher, decidir, ser eu apertando o botão — que eu nunca mais parei.
Desde aquele dia, tudo que aconteceu comigo teve um pedaço meu na decisão. Às vezes um pedaço grande. Às vezes um pedaço minúsculo, do tamanho de escolher como reagir a uma coisa que eu não pedi. Mas sempre teve. Quem escolheu fui eu.