Porque Assim Escolheu o Jack — Capítulo 7 — A Firma
Duas barracas, um Jack só. A matemática não fecha até fechar.
Ninguém nunca perguntou. Por isso ele nunca contou. Agora ele conta — rindo, porque é o único jeito que ele aceita.
Duas barracas, um problema: eu não estou em dois lugares ao mesmo tempo.
Então eu comecei a contratar. E contratar, na rua, tem um detalhe.
Metade dos moleques que eu botei pra trabalhar comigo eu já tinha trocado tapa antes.
Marélia é pequena pra quem anda o dia inteiro nela. Você briga com um moleque numa esquina por causa de nada, e três meses depois esse mesmo moleque tá com fome, precisando de um corre, e você precisando de mão. A rua junta e separa as pessoas rápido.
Eu contratava assim mesmo. Fome não escolhe ex-inimigo, e eu também não.
O treinamento era curto. Eu falava sem levantar a voz:
— Você sabe com quem eu ando. E melhor ainda: você sabe quem eu sou. A gente já se pegou, você lembra como foi. Se você me roubar, não vai ter treta na esquina. Vai ter outra coisa. Escolhe direito.
Nunca precisei repetir pra ninguém.
E olha que eu pagava certo — então quase ninguém tinha motivo pra querer testar.
Pagar certo não é bondade, é conta.
Moleque mal pago vira moleque que te rouba, e o rombo sai mais caro do que o salário justo teria saído. Simples.