Porque Assim Escolheu o Jack — Capítulo 8 — Ninguém Nunca Perguntou
O envelope ia pro sertão. O que o Jack manda pra casa, em segredo, há anos.
Ninguém nunca perguntou. Por isso ele nunca contou. Agora ele conta — rindo, porque é o único jeito que ele aceita.
O envelope ia pro sertão.
Pros meus pais. Aqueles mesmos que me entregaram aos dois anos porque não tinha comida em casa. Eu mando dinheiro pra eles todo mês, faz um tempão, e ninguém no mundo sabe disso além de nós três.
Calma que eu explico como a gente se reencontrou. E já aviso: a primeira parte é ridícula.
Foi por carta.
CARTA. Vocês entenderam? Papel. Envelope. Selo. Numa era em que eu tenho no bolso um celular que faz mais conta que a NASA, a minha ligação com os meus pais foi, por anos, CARTA.
Funcionou assim. Lá na casa dos tios, chegava uma carta ou outra dos meus pais. A Tia quase nunca entregava, mas eu catava o endereço do remetente no canto do envelope e decorei — contei isso lá atrás. Era um endereço no sertão, e ele ficou gravado em mim.
Quando eu me firmei na rua, a primeira carta fui eu que mandei. Escrevi torto, porque eu mal sabia escrever, pro endereço que eu carregava de cor desde os quatro anos. E escrevi junto, bem grande, o endereço onde eles deviam responder.
A partir daí virou vai e volta. Toda vez que eu mudava de canto — e eu mudei umas quantas, do vão pra loja do Seu Nestor, da loja pra casa alugada — eu mandava uma carta antes avisando o endereço novo. Eles anotavam e passavam a escrever pra lá.
Semanas de espera entre uma e outra. A resposta vinha sempre mais torta que a minha, porque a minha mãe escreve pior que eu e o meu pai só assina o nome no fim.
O conteúdo das cartas era o seguinte: nada.
"Choveu semana passada, graças a Deus." "Teu primo casou." "Tá comendo direito?" "A cabra teve filhote." Página atrás de página de absolutamente nada acontecendo, escrito com um carinho que não cabia no papel.
Eu guardo todas. Não vou dizer onde.
Aí eu comecei a ganhar uma grana, e a minha paciência com o século passado acabou.
Comprei um celular velho, dos baratos, e mandei pro sertão. Configurei tudo antes: botei o meu número salvo como "FILHO", em letra bem grande, porque eu conheço os meus clientes. E pago a franquia desse celular todo mês até hoje — porque se depender dos dois recarregarem sozinhos, a gente perde contato e volta pro correio.
Agora a gente faz chamada de vídeo. Vez ou outra. A imagem trava, o áudio atrasa, a minha mãe segura o celular a um palmo do rosto e eu passo a ligação inteira olhando pra um olho gigante e a parede atrás dela.
É a melhor coisa da minha semana.
Meus pais se preocupam comigo de um jeito que não tem tamanho.
Toda ligação é um interrogatório. Comeu o quê. Dormiu quantas horas. Tá agasalhado. Quem é esse povo com quem você anda. Esse tal de Kim é de confiança mesmo. Você tá estudando. Você tá se metendo em confusão — e aí eu minto, óbvio, porque "que confusão, mãe, imagina" desce melhor que a verdade.